Socorro! Tem um bêbado no volante...

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Sabe, todo sábado era um sábado diferente. Tínhamos de arrumar algo para fazer, pois não tinha internet para passar o tempo, a TV nem sempre era legal, nos restava apenas a rua para diversão. Digo isso tendo em vista meu tempo áureo. Apesar da repressão política rolando solta, aproveitei bem minha adolescência, até mais do que possa imaginar.

A história de hoje envolve álcool e volante, algo que, mesmo com a lei seca, ainda há de monte. Naquele tempo não havia tanta informação, bebíamos sem nos preocupar quem dirigiria na volta para a casa, aliás, qualquer um guiava o carro, até mesmo eu que em 1976 ainda era menor de idade.

Como dito, eu tinha apenas 16 anos. Estava rolando uma churrascada colaborativa na casa da Michele, uma garota ranzinza da escola, e entrava quem quisesse bastando levar apenas carne ou cerveja. Obviamente, creio que isso ainda aconteça hoje em dia, a festa encheu. A garagem extensa, fantasiada de lajotas coloridas na parede, quase regurgitava todo aquele pessoal. Suor, cigarro, churrasco, música e cerveja a tarde toda.

Fui com o Ernesto, fiel companheiro nas tardes de sábado. Crescemos na mesma rua, mas naquele tempo, ele já morava com os avós. Seus pais sofreram um acidente fatal durante uma viagem ao litoral. Um caminhão-pipa sem controle atravessou a pista e acertou em cheio o carro azul da família dele. Há males e males! Com o dinheiro da herança, Ernesto comprou uma moto, mas logo trocara por um carro usado. Era um Fiat 147 vendido como usado, no entanto, era novinho em folha.

Ele já era maior de idade, dito como bem responsável por todos. Mas não, neste exato dia, ele não foi nada responsável. Melhor dizendo, não fomos nada responsáveis. Bebemos, bebemos, bebemos e... enchemos a cara. Estranhamente ele encontrava-se mais bêbado que eu a ponto de não conseguir levantar do chão depois de um tropeço nos próprio pé. Rômulo, um amigo que tínhamos em comum, ainda disse que daquele jeito Ernesto não conseguiria chegar em casa mesmo que Hitler ressuscitasse.

A decisão tomada por mim foi: eu mesmo dirigirei o carro de Ernesto. O plano era deixá-lo em casa, depois eu me viraria para voltar à minha. O ápice dessa decisão, se é que posso chamá-la assim, é que minha experiência com o volante era pouquíssima. Dirigi, até então, 2 ou 3 vezes. Havia pego escondido o carro do meu pai. Dessa vez, além de tudo, eu estava bêbado.

Botei o Ernesto no banco do passageiro. O coitado parecia desacordado e carregava consigo uma lata de leite condensado nas mãos. A solução da embriaguez era leite condensado, mas mais que isso, era mito. Nunca funcionou comigo.

Dei a partida no carro, confiante de que estava tudo bem, de que daria tudo certo. Mas esse pensamento foi antes da sensação de ter dirigido uns 2km e só depois soltar o freio de mão. Sai feito touro em rodeio, nada de mais havia acontecido até então. Sabia o caminho, estava indo bem, acelerando e freando o mais consciente possível, até que encontrei o primeiro semáforo. Bêbado tem mania de achar que estava fazendo tudo certo, por que será? Parei bem em cima da faixa de pedestre, sorte que já era quase oito e meia da noite, poucas pessoas na rua naquele instante. Bom, como dito, encontrei o primeiro semáforo, mas pelo que me lembro, parei mesmo com a luz verde acesa, ou seja, indicando que eu poderia ter seguido em frente.

Ernesto, ao lado, agora fazia uns barulhos estranhos com a boca. A impressão é de que ele estava dormindo, mas, de fato, estava tentando dizer algo. Entendi a parte: - Deixa eu dirigir. Eu só ri, sorri.

Continuei bem, não havia trânsito, não havia polícia, não há certeza no que escrevo. A verdade é que me lembro de pouquíssimas cenas. Por sorte, e tempere com muita sorte, não aconteceu nada de trágico. Apesar da minha inexperiência, se consegui dirigir bem enquanto estava bêbado, imagine só quando sóbrio. Cheguei na casa do Ernesto, deixei o carro estacionado meio sobre a calçada, meio sobre a rua. Entreguei-o nos braços do avô. O mesmo insistiu que eu ficasse, já era tarde para voltar sozinho para casa, alegava o velho. Lembrando que, naquele tempo, dez horas da noite todos tinham que virar abóbora.

Não pensei duas vezes, fiquei na casa dos avós do Ernesto naquela noite. O carro, vô Chico guardou na garagem. Amanheci sem ressaca, mas com a certeza de que tive bastante emoção. Fui para casa já ciente dos puxões de orelha, ciente também de que o pior não aconteceu.

Ernesto, até hoje, não vê graça nessa história.

imagem de Anônimo
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qua, 01/20/2010 - 19:13

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