Lembro quando Helena, uma de minhas filhas, era ainda menina. No entanto, já sabia argumentar, tinha as palavras a seu favor em qualquer lugar que fosse. Com certeza puxou mais a mãe do que o pai.
Certa vez vi com meus próprios olhos enquanto estava debruçado na varanda de casa, Helena dando bronca em um garoto miúdo na rua pelo fato dele ter se escondido num lugar indevido no meio de uma brincadeira. Ela tinha apenas 8 nessa ocasião. Já tinha pose e posse como se fosse uma deusa grega.
Além disso, como já dito, ela possuía uma beleza irradiante. Seus traços eram bem simétricos, delicados. O nariz levemente empinado. Olhos grandes, verdes. Sorriso alinhado, esbranquiçado, límpido. Essa era Helena Botelho, a menina do pai, a boneca intocável para os meninos. Com certeza puxou mais o pai do que a mãe.
Toda essa introdução é para relatar (e relembrar) o dia que resolvemos sacaneá-la. Fingimos a Helena que todos em casa haviam ficados surdos, repentinamente. Até Heloísa, que nessa época era quase incapaz de compreender o mundo, entrou na brincadeira. Tagarela que só Helena conseguia ser, queríamos testá-la até onde aguentaria falar sem que ninguém prestasse atenção nela.
E logo no início da nossa brincadeira, ela veio contando sobre o que aconteceu na escola naquele dia. Era difícil manter a atenção longe do alcance dela, manter a boca fixa longe da gargalhada. Helena falava, falava; talvez ainda não percebera que "não estava sendo escutada". Heloísa olhava para mim como se estivesse assustada. Seria bem recompensada, caso tudo corresse como combinado. Enfim, Helena transformara-se em Cassandra, ninguém dava crença no que era dito por ela.
Seguimos assim até que Helena trancou-se no banheiro, prometendo e cumprindo um choro desgraçado, escandaloso. Heloísa foi a primeira a soltar o riso de satisfação. Havíamos encontrado o ponto fraco de Helena. Era necessidade dela ser escutada e compreendida. No entanto, era também necessário mostrá-la que nem sempre as pessoas quererão ouví-la. É preciso respeitar o momento, a situação, as pessoas.
Digo que a lição não valeu muito. No dia posterior, Helena, assim que chegou da escola, tagarelou até sua mãe suplicar que parasse. Costumávamos dizer que ela gostava de comer discos de vinil quando pequena, por isso falava mais do que a boca. Os lábios chegavam a ressecar de vez em quando. Cresceu assim, é assim, e nada muda.














seg, 03/22/2010 - 12:33
Hahahahaha! Sacanagem com a menina, tadinha. Vou fazer essa pegadinha com meu filho qualquer dia desses. rs
qua, 01/20/2010 - 19:13
[...] Socorro! Tem um bêbado no volante... [...]